Gonçalves, J.M.S.; Monteiro, P.; Coelho, R.; Afonso, C.; Ribeiro, J.; Almeida, C.; Veiga, P.; Machado, D.; Berecibar,
E.; Oliveira, F. e Bentes, L.(2004). Mapping of marine
biocenoses off the National Underwater Ecological Reserve
between Albufeira and Vale do Lobo. Final Report. CCDR Algarve. Universidade do Algarve, CCMAR, Faro, 182 pp + annexes.
RENSUB I: Evaluation of the impact of dredging for beach nourishment on the marine communities off the Central Algarve
Abstract
O processo de levantamento e cartografia dos
fundos marinhos dos 0 aos 30 m de profundidade de Vale do Lobo a
Albufeira (Algarve Central) permitiu identificar 1015 espécies
correspondentes a 133 peixes (13.1%), 797 de macroinvertebrados
bentónicos (78.5%) e 85 algas (8.4%), no que será o maior
inventário de espécies marinhas da costa algarvia.
O esforço de amostragem permitiu mesmo
identificar 12 espécies novas para a vida marinha na costa
continental portuguesa, 4 para a fauna e 8 para a flora
marinhas. Os novos registos para Portugal consistiram em 3
peixes (Gobius gasteveni, Buenia sp., Lebetus
scorpioides), 1 gastrópode (Ocinebrina nicolai) e 8
algas (Zonaria tournefortii; Dictyopteris cf.
delicatula; Diplothamnion jolyi; Stypopodium
cf. zonale; Dasya corymbifera; Pterothamnion
crispum, Rhodymenia holmesii e Wrangelia argus).
Em conjunto com as espécies associadas à outra vertente do
presente projecto (Gonçalves et al., 2004), o total de espécies
com primeiro registo para Portugal perfaz 19 e com isso
demonstrando a importância e necessidade deste tipo de estudos
para um melhor conhecimento e consequente conservação da nossa
vida marinha.
Deste inventário faunístico, 71 espécies
apresentam valor comercial, das quais 16 têm estatuto de
“comercialmente ameaçada”, mais 4 espécies com classificação
“insuficientemente conhecido” e outras duas com estatuto
“indeterminado” e finalmente duas que constam da Convenção de
Berna.
As biocenoses do substrato rochoso
apresentaram 368 espécies animais (67 peixes e 331
invertebrados) e 85 taxa de algas bentónicas, mostrando uma
biodiversidade (riqueza especifica + distribuição relativa das
espécies) e densidades assinaláveis. De facto, estes
ecossistemas surgem quase como um sistema oásis isolados num
deserto de areia. As espécies estruturantes destas biocenoses
são as algas castanhas como a Cystoseira usneoides e em
menor escala Dictyota dichotoma e Phyllariopsis
purpurascens, as anémonas Anemona sulcata e
Aiptasia diaphana o briozoário Pentapora foliacea, o
gastrópode Nassarius (Hima) incrassatus, as
esponjas como a Phorbas fictitius, o ouriço
Paracentrotus lividus, o ofiurideo Ophioderma longicaudum
e os pepinos do mar Holothuria tubulosa e Holothuria
forskali. Os peixes que predominam nestes fundos são juvenis
e adultos de espécies demersais com valor comercial como a safia
Diplodus vulgaris, e outros considerados dependentes de
sistemas recifais como o bodião Coris julis, e pelos
pequenos peixes bentónicos, os cabozes Parablennius
pilicornis e Gobius xanthocephalus. Todas estas
espécies poderão ser objecto de um estudo aprofundado para que
possam servir de elemento de monitorização destes sistemas.
Constatou-se que existe uma forte sazonalidade na definição dos
povoamentos e diferenças claras entre os vários afloramentos
rochosos estudados, marcadas pela profundidade e pela natureza,
topografia e hidrodinamismo prevalecente em cada área.
As biocenoses do substrato arenoso foram
caracterizadas por 444 espécies distribuídas por 90 peixes e 354
macroinvertebrados, correspondendo a uma biodiversidade
surpreendentemente elevada e a densidades muito apreciáveis.
As espécies de equinodermes, nomeadamente
Ophiura spp. (O. albida e O. texturata),
Astropecten aranciacus e Sphaerochinus granularis
desempenham um papel fundamental na estruturação da comunidade,
pois são espécies oportunistas, resistentes e com uma voracidade
de registo, e servindo de controlo das populações da endofauna.
Outras espécies como a ascídea Phallusia mammillata e o
bivalve Anomia ephippium constituem outros invertebrados
de relevo nesta comunidade a par dos peixes com a carta
Arnoglossus thori, mil arrobas Serranus hepatus, os
cabozes Gobius gasteveni, G. roulei e
Deltentosteus quadrimaculatus a azevia-marginada cf.
Microchirus boscanion, e os peixes pau Callionymus
reticulatus, C. risso e C. maculatus.
Existiram diferenças nítidas entre os
povoamentos dos 3 estratos de profundidade com uma correlação de
sinal positivo entre a diversidade e abundância a profundidade.
O estrato dos 0 e os 10 m de profundidade apresentou os menores
valores no que respeita aos parâmetros analisados, mas com uma
grande variabilidade decorrente da grande concentração pontual
de amêijoa branca, Spisula solida, na zona de Vilamoura. Esta
zona tem uma grande incidência da pesca com ganchorra, mas
também está sujeita a condições ambientais mais instáveis. Uma
maior complexidade do habitat e uma maior estabilidade
hidrodinâmica, com o aumento da profundidade permitiu o
desenvolvimento de maior riqueza biológica nas profundidades dos
20 aos 30 m.
À semelhança do substrato rochoso, também nos
fundos arenosos se faz sentir uma forte sazonalidade, que deriva
de condições ambientais diversas e do ciclo de vida anual de
muitas das espécies que neles habitam.
A nível da análise de sensibilidade ecológica
pode-se afirmar que o modelo apresentado pretende ser uma
primeira aproximação para a demonstração espacial dos diversos
graus de biodiversidade, densidade e vulnerabilidade da vida
marinha. A vantagem deste sistema é precisamente a sua
flexibilidade e a possibilidade de ser melhorado, ampliado e
cada vez mais adequado aos propósitos de uma gestão equilibrada
do meio marinho. O modelo inclui uma componente de
representatividade ao tentar incluir a influência das espécies
raras (riqueza especifica), estabelecendo uma ponte com as mais
comuns (diversidade); outra componente de viabilidade e ameaça
(densidade), segundo o princípio de que quando maior a densidade
menor a possibilidade de extinções locais e por último uma
componente de vulnerabilidade e raridade (espécies com estatuto
de conservação) que atribui a áreas com populações ameaçadas um
valor extra para a sua conservação.
Da aplicação ao caso concreto do Algarve
Central, pode-se constatar a importância do substrato rochoso
como plataforma de vida excepcional, com destaque para os
sistemas das Barrocas, dos Balanceais, Arrifes e Pedra do Alto.
Os fundos arenosos de profundidades limite da área de Reserva
Ecológica Nacional Submarina constituem também biótopos de
riqueza ecológica elevada, que à imagem dos sistemas de rocha
deverão ser alvo de precaução, avaliação e gestão em função das
mais diversas intervenções humanas.