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Gonçalves, J.M.S.; Monteiro, P.; Coelho, R.; Afonso, C.; Almeida, C.; Veiga, P.; Machado, M.; Machado, D.; Oliveira, F.; Ribeiro, J.; Abecasis, D.; Primo, L.; Tavares, D.; Fernández-Carvalho, J.; Abreu, S.; Fonseca, L.; Erzini, K. e Bentes, L. (2007). Cartography and characterization of the marine communities off the National Underwater Ecological Reserve between Galé and Ancão. (in portuguese). Final report. CCDR Algarve. Universidade do Algarve, CCMAR, Faro, 242 pp + annexes.

RENSUB II: Cartography and characterization of the marine communities off the National Underwater Ecological Reserve between Galé and Ancão.

Abstract

O estudo e cartografia dos fundos marinhos dos 0 aos 30 m de profundidade da Galé à Barra Nova do Ancão (Algarve Central) permitiram identificar um total de 895 espécies correspondentes a 103 peixes (11,5%), 730 de macroinvertebrados bentónicos (81,6%) e 62 algas (6,9%), acrescentando 393 espécies novas à fase anterior deste estudo (RENSUB I, Gonçalves et al., 2004), totalizando agora cerca de 1139 espécies, aumentando aquele que será o maior inventário de espécies marinhas da costa algarvia.

Mais uma vez o esforço de amostragem permitiu a existência de 12 novos registos de espécies para Portugal: consistiram em 9 crustáceos (Apherusa vexatris, Elasmopus vachoni, Autonoe karamani, Synisoma mediterranea, Metaphoxus simplex, Gnathia dentata, Microdeutopus algicola, Amakusanthura cf. iberica e Autonoe cf. rubromaculatus) 1 gastrópode (Fusinus cf. crassus) e 2 algas (Chrysimenia ventricosa e Mesophyllum expansum). Destaca-se ainda que 3 das espécies de crustáceos acima mencionadas (Apherusa vexatris, Elasmopus vachoni e Autonoe cf. rubromaculatus) constituem igualmente um primeiro registo para a Península Ibérica.

Em conjunto com o inventário de espécies associado a projectos anteriores (Gonçalves et al., 2004b,c), o total de espécies com primeiro registo para Portugal perfaz 25 e com isso demonstrando a importância e a necessidade deste tipo de trabalhos para o conhecimento da biodiversidade do mundo marinho, facultando deste modo, a sua conservação futura.

Deste inventário faunístico, 179 espécies apresentam valor comercial, das quais 91 em Portugal e 23 em outros países. Da totalidade de espécies com interesse comercial 45 apresentam ainda interesse ornamental (aquariofilia e coleccionismo) e 24 para produção de componentes biomedicinais. De acordo com a classificação ICN (1993) foram registadas 24 espécies “comercialmente ameaçadas”, 2 espécies “insuficientemente conhecidas” e outras duas com estatuto “indeterminado”. Finalmente 9 espécies constam da Convenção de Berna e 10 na lista da World Conservation Unit (IUCN).

A quantidade elevada de espécies marinhas com valor comercial reflecte a riqueza económica desta região marinha que está a ser explorada em consonância. Relativamente às espécies ameaçadas, apesar de muitas destas classificações necessitarem de actualização 2 mercê de novos conhecimentos e até de novos conceitos, e de os invertebrados e as algas não terem até hoje tido muita atenção em termos de estatuto de conservação, é de realçar a sua importância para a definição dos critérios de gestão costeira e da conservação de ambientes marinhos.

Em termos muito gerais e em função da principal abordagem metodológica, os substratos foram divididos em dois grandes grupos: os substratos móveis ou “arenosos” e os substratos duros ou “rochosos”. Existiu uma clara separação entre ambos os habitats, sendo o rochoso portador de uma biodiversidade e sobretudo densidades de organismos, consideravelmente superior.

As biocenoses do substrato rochoso apresentaram 580 espécies animais (85 peixes e 441 invertebrados) e 62 taxa de algas bentónicas, demonstrando uma diversidade biológica e abundâncias consideráveis. Entre as espécies observadas 148 (112 animais e 36 algas) não tinham sido identificadas em áreas estudadas anteriormente (Gonçalves et al., 2004c).

As espécies estruturantes destas biocenoses são as algas castanhas como a Halopteris filicina e Cystoseira usneoides as algas calcárias Lithophylum incrustans e em menor escala a alga castanha Dictyota dichotoma, as anémonas Anemonia sulcata, a esponja Phorbas fictitius, o pepino do mar Holothuria cf. forskali, os briozoários Pentapora foliacea e Schizobrachiella sanguinea, o gastrópode Bolma rugosa e os hidrozoários do género Aglophenia.

Este tipo de substrato é considerado um habitat essencial para muitos peixes marinhos. Nesta situação, estão, os juvenis e adultos de espécies demersais com valor comercial como a safia Diplodus vulgaris e o sargo Diplodus sargus, os peixes bentónicos e crípticos como os cabozes Gobius xanthocephalus e Parablennius pilicornis, assim como outros considerados dependentes de sistemas recifais como os bodiões Coris julis e Ctenolabrus rupestris.

As biocenoses do substrato arenoso foram caracterizadas por 471 espécies distribuídas por 65 peixes e 406 macroinvertebrados, correspondendo a uma biodiversidade surpreendentemente elevada e a densidades muito apreciáveis. De notar que estes valores não são directamente comparados com os provenientes das “rochas”, pois nas “areias” o esforço de amostragem foi maior, face à maior extensão deste substrato e logo a probabilidade de encontrar espécies raras foi maior. Entre as espécies identificadas 236 não tinham sido observadas nas áreas estudadas previamente (Gonçalves et al., 2004c).

As espécies de ofiúros Ophiocomina nigra, Ophiura texturata e Ophiura albida formam densas aglomerações condicionando fortemente a composição faunística de determinadas áreas, enquanto outros equinodermes como Astropecten aranciacus e Sphaerochinus granularis desempenham um papel de relevo na estruturação da comunidade, pois são espécies predadoras de vulto, muito oportunistas e resistentes que regulam a dinâmica populacional das espécies da endofauna.

A ascídia Phallusia mammillata, o crustáceo Pisidia longicornis e o bivalve Anomia ephippium são outros invertebrados de destaque nesta comunidade juntamente com os peixes 3 como as cartas Arnoglossus thori e Arnoglossus laterna, mil arrobas Serranus hepatus, os cabozes Gobius gasteveni e Deltentosteus quadrimaculatus, a azevia-marginada cf. Microchirus boscanion e o peixe-aranha Trachinus draco.

Através da utilização das proporções relativas encontradas na presente fase do projecto RENSUB e na anterior (Gonçalves et al., 2004) relativamente às espécies mais relevantes e em particular de Anemonia sulcata e Diplodus vulgaris no rochoso e de Arnoglossus thori e Ophiura albida no arenoso poder-se-á potenciar esquemas de monitorização rápidos e eficazes destes sistemas. Esta análise sistemática poderá ser realizada por meio de transectos de video no substrato móvel e por censos visuais nos afloramentos rochosos. De facto, o estudo sobre o vídeo validou 5 aspectos, a saber: 1) possibilidade de efectuar uma monitorização sobre as espécies-chave de fundos de sedimentos (Ophiocomina nigra, Phallusia mammillata, Sphaerochinus granularis, Ophiura spp., Astropecten aranciacus e Serranus hepatus); 2) catalogar e discriminar biótopos em grandes áreas; 3) comparar e validar a classificação de cartas sedimentológicas; 4) estudar o comportamento dos organismos face a artefactos aferindo indirectamente a eficácia de técnicas de amostragem clássicas, como o arrasto.

Quanto às raspagens em substrato rochoso verificou-se que este tipo de estudo é, no subtidal, praticamente inexistente na Europa, incidindo apenas na zona entre marés (intertidal). Dai que os resultados em termos de novos registos de espécies para Portugal e Península Ibérica fossem muito importantes. Contudo, a escala em que se trabalha e a logística necessária à identificação dos organismos não se coaduna com os objectivos e prazos do mapeamento do subtidal do Algarve central (RENSUB).

Relativamente à investigação sobre a técnica do foto-quadrado aplicada à avaliação de macrofauna bentónica em substrato rochoso ficou-se a saber que à semelhança das raspagens não constituirá uma método alternativo, antes complementar. Neste contexto, o foto-quadrado poderá ajudar na monitorização de determinados habitats ou mesmo micro-habitats efectuando um registo digital permanente dos povoamentos existentes nos locais amostrados, através de um custo relativamente reduzido.

Em ambos os substratos, a sazonalidade afecta fortemente a definição das densidades e biodiversidade, evidenciando-se sobretudo as diferenças entre estações extremas, Inverno- Verão. Estas diferenças estarão associadas com as relações entre a temperatura e hidrodinamismo e os diversos ciclos de vida anuais de muitas espécies bentónicas.

As diferenças claras entre os vários afloramentos rochosos estudados foram determinadas pela profundidade e pela natureza, topografia e hidrodinamismo prevalecente em cada área, enquanto no substrato móvel existiram diferenças significativas sobretudo entre as comunidades dos 2 estratos de profundidade extremos (0-10 vs. 20-30), com uma correlação de sinal positivo entre a diversidade e abundância a profundidade. Questões como uma maior complexidade do habitat e uma maior estabilidade hidrodinâmica e consequentemente de parâmetros ambientais (e.g. temperatura, salinidade, turbidez e oxigénio dissolvido) poderão estar na origem de uma maior riqueza biológica para maiores profundidades. A granulometria e 4 composição orgânica dos sedimentos poderão igualmente estar na origem de diferenças nas comunidades marinhas que lhes estão associadas.

A classificação dos diversos biótopos seguiu em termos gerais as regras estipuladas pela European Nature Information System (EUNIS, Davies et al., 2001) e pela Britânica Joint Nature Conservation Committee (JNCC, Connor et al., 2004), que evidenciam as espécies dominantes e um conjunto de espécies conspícuas e características de determinadas condições ambientais e/ou bióticas de determinado habitat. Em geral, e para um primeiro nível de habitats marinhos existem 2 paisagens marinhas, substrato rochoso e móvel, que se subdivide em litoral, infralitoral e circalitoral (nível 2), separando-se cada um em função da energia associada e a natureza no caso das rochas e tipo de granulometria nos sedimentos (nível 3), destacando-se na zona estudada os biótopos de Rocha Circalitoral da Greta e Balancial; Rocha Infralitoral das Barrocas e Albufeira; areias grosseiras com Bancos de Bivalves e de Ofiúros brancos; as areias finas e vasosas com Bancos de Ofiúros negros e areias grosseiras com povoamentos de peixes e equinodermes. A definição de biótopos com base na utilização de análises de similaridade parece ser robusta, mas os dados de base (densidades em número) poderão vir a ser refinados pela inclusão de índices compostos.

A aplicação concreta da modelação geostatistica iniciada no RENSUB I (Indice de Importância Ecológica) na cartografia das comunidades marinhas associadas aos fundos Algarve Central, fez destacar a importância do substrato rochoso como oásis de vida face à grandeza da abundância e diversidade de organismos presentes relativamente aos restantes tipos de fundos. Destacam-se como áreas com maior valores do índice de importância ecológica, o complexo das Barrocas e o complexo do Balancial. Na zona mais ocidental da zona de estudo (Albufeira) denotou-se um continuum de substrato rochoso que poderá de certa forma separar, em termos de fundo marinhos, o barlavento mais rochoso de um sotavento mais arenoso, com todas as implicações associadas. Dentro dos fundos arenosos destacaram-se algumas áreas que constituem também biótopos de riqueza ecológica elevada, nomeadamente as zonas de confluência com substrato rochoso e as areias finas e vasosas com bancos de ofiúros negros de Albufeira. Os fundos de areia com densidades monoespecificas assinaláveis como os bancos de bivalves de amêijoa-branca (Spisula solida) em Açoteias-Vilamoura, constituem áreas de pesca com exploração muito intensa, nalguns casos eventualmente em sobrepesca.

Estes fundos de areia singulares deverão ser, à semelhança dos sistemas de rocha, alvo de precaução, avaliação e gestão, em função das mais diversas intervenções humanas, com destaque para a pesca, dragagens e poluição urbana.

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