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Recrutamento de Espécies Piscícolas de Interesse Comercial no Estuário do Rio Arade - 2003-2007. Programa MARE - P.O. Pescas (Cód. 22-05-01-FDR-00017)

O presente projecto visou estudar a dinâmica das comunidades piscícolas do estuário do rio Arade, com especial ênfase para as espécies de interesse comercial. Foram realizadas, entre Janeiro de 2004 e Abril de 2005, 16 campanhas de amostragem, nas quais foram utilizados vários métodos de amostragem, para inventariar a ictiofauna do estuário. A metodologia empregue teve como base uma campanha preliminar e bibliografia. Na campanha preliminar realizaram-se amostragens nos vários regimes de maré (preia-mar/baixa-mar) e altura do dia (dia/noite), de modo a verificar qual a situação mais favorável para a utilização dos diferentes métodos. Os métodos utilizados foram: (1) arrasto de vara, dirigido às espécies bentónicas e demersais do canal principal do estuário; (2) redinha, dirigida aos peixes que frequentam as zonas marginais; (3) “pushnet”, dirigida às espécies que ocorrem nos esteiros de sapal; (4) murejonas, dirigidas às espécies que utilizam o substracto rochoso; (5) tresmalho; dirigido aos indivíduos de maiores dimensões que frequentam a foz do estuário; (6) mergulho, através de censos visuais, para inventariar as espécies presentes num naufrágio e nos molhes da foz do estuário do rio Arade. No caso dos métodos arrasto de vara, redinha e “pushnet”, estes foram utilizados em vários pontos do estuário, de modo a avaliar a distribuição e dinâmica dos peixes dentro do estuário. Em todos os momentos de amostragem foram registadas as coordenadas geográficas através de um GPS e realizada a leitura dos parâmetros físico-químicos (profundidade, temperatura, oxigénio dissolvido e salinidade). No fim de cada lance as capturas/amostras (no caso das artes de pesca) foram triadas e acondicionadas, para posterior identificação no laboratório. No total foram capturados 72761 peixes, pertencentes a 101 espécies [97 de peixes ósseos (Osteichthyes) e 4 de peixes cartilagíneos (Chondrichthyes)] correspondendo a 35 famílias. As famílias mais representadas foram Sparidae (16 espécies), seguida de Gobiidae (13), Soleidae (8), Syngnathidae (7) e Labridae (7). O maior número de espécies foi capturado pelo arrasto de vara (65), seguido pela redinha (58) e nos censos visuais foram contabilizadas 38 espécies. Estes resultados justificam a utilização de vários métodos de amostragem, dado que este foi maior número de espécies registado num estuário Português, num único estudo. Das espécies capturadas 64 possuem interesse comercial, algumas das quais de elevado valor, como o salmonete (Mullus surmuletus), os linguados (Solea spp.), o rodovalho (Scophthalmus rhombus), o robalo (Dicentrarchus labrax), os sargos (Diplodus spp.), os pargos (Dentex spp.) e a dourada (Sparus aurata). A maioria destas espécies foi exclusivamente representada por juvenis, o que demonstra a importância do estuário do Arade como local de crescimento e alimentação para este grupo de peixes. Em termos de estatuto de conservação, capturaram-se 31 espécies com este estatuto, com destaque para a savelha (Alosa fallax)e os cavalos-marinhos (Hipocampus spp.), espécies com elevado valor ecológico pela situação potencialmente vulnerável em que as respectivas populações se encontram nas nossas águas. As espécies de interesse comercial parecem escolher as diferentes zonas do estuário em função da disponibilidade de alimento, parecendo ocorrer entre elas mecanismos de redução da competição inter-específica, quer pelo desfasamento das épocas de recrutamento quer pela escolha de locais preferenciais diferentes. A zona da barra evidenciou uma densidade considerável de soleídeos (linguados, rodovalho, azevia), tanto em estados juvenis como adultos, podendo representar um papel preponderante para o desenvolvimento destas espécies. Foram também registadas várias espécies de crustáceos e moluscos com elevado valor comercial, das quais se destacam a santola (Maja squinado), o polvo (Octopus vulgaris), a navalheira (Necora puber), o choco (Sepia officinalis), a gamba-de-Quarteira (Melicertus kerathurus), o camarão-branco-legítimo (Palaemon serratus), entre outras. A espécie mais abundante foi o caboz-comum (Pomatoschistus microps), representando 53,9% do total das capturas. Seguiram-se, por ordem decrescente, a sardinha (Sardina pilchardus - 17,4%), o peixe-rei (Atherina spp. .- 8,8%), a azevia-marginada (Microchirus boscanion - 3,1%) e o charroco (Halobatrachus didactylus - 2,9%). Relativamente à biomassa, as espécies mais representativas foram o charroco (27,2%), a safia (Diplodus vulgaris - 7,2%), o peixe-rei (6,9%) e o robalo (Dicentrarchus labrax - 6,2%), juntos perfazendo 47,5% do total de peso capturado. Em termos de classificação ecológica o grupo mais representativo foi o das espécies migradoras ocasionais, com mais de metade das espécies inventariadas a terem esta classificação. No entanto, as espécies residentes dominaram, tanto em número como em peso, resultados que vão de encontro ao padrão geralmente observado em estuários. Outro grupo importante, foi o das espécies que utilizam o estuário como viveiro. Dentro deste grupo estão incluídas a maior parte das espécies de interesse comercial registadas no presente estudo. A savelha foi a única espécie anádroma capturada e a enguia a única espécie catádroma. Não foram capturadas espécies dulçaquícolas. Dos parâmetros abióticos registados, foi possível verificar um padrão sazonal na temperatura e na salinidade, apresentando valores médios mais baixos nos meses de Inverno e mais elevados no Verão. Já ao longo do estuário, foi possível observar um aumento da salinidade e oxigénio dissolvido de montante para jusante. O contrário foi observado nos parâmetros temperatura e profundidade, que apresentaram valores médios mais elevados nos locais mais a montante. Todavia, em todos os casos as variações observadas foram reduzidas. Os parâmetros físico-químicos apresentaram correlações significativas com a abundância das espécies, sugerindo que têm alguma influência na dinâmica das comunidades no estuário do Arade. Pela análise dos resultados obtidos na amostragem do rio Arade foi possível retirar duas conclusões acerca do funcionamento e distribuição das comunidades de peixes neste ecossistema:

1. As zonas intermédias, nomeadamente o Cais Comercial e a Mexilhoeira da Carregação são as áreas mais ricas e mais diversas do estuário. 2. A comunidade estuarina sofre uma alteração significativa durante os meses de Primavera e Verão com a entrada massiva de diversas espécies marinhas que utilizam as diferentes áreas do estuário durante um período variável de tempo.

Assim, foi possível observar a existência de duas comunidades distintas: a comunidade de Primavera-Verão, composta por um maior número de espécies, entre as quais muitas espécies marinhas que entram no estuário enquanto juvenis e outras que aqui ocorrem provavelmente para se alimentarem. Por outro lado, a comunidade de Inverno é essencialmente caracterizada por espécies residentes como o charroco, e os gobídeos. A diferenciação espacial da fauna piscícola ao longo do estuário foi evidente, sendo as comunidades das zonas mais próximas da foz constituídas por muitas espécies marinhas, enquanto que as zonas mais a montante no estuário são representadas, essencialmente, por espécies tipicamente estuarinas, como o charroco. Por outro lado, as zonas de maior riqueza ecológica foram as que apresentaram uma maior complexidade em termos de habitat. Este estudo constitui um importante contributo para o conhecimento da estrutura e dinâmica da fauna piscícola do estuário do Arade, nomeadamente das espécies de interesse comercial. Desta feita, o intensivo esforço de amostragem empregue permitiu obter um cenário bastante completo das comunidades de peixes que utilizam este estuário. O valor económico e ecológico do estuário do Arade ficou aqui reforçado, sendo que este aspecto deverá ser tido em conta no futuro, sempre que forem tomadas medidas que possam de alguma forma afectar o equilíbrio deste ecossistema.

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