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Gonçalves, J.M.S., Monteiro, P., Afonso, C.,
Almeida, C., Oliveira, F., Rangel, M., Ribeiro, J., Machado, M.,
Veiga, P., Abecasis, D., Pires, F., Fonseca, L., Erzini, K. e
Bentes, L. 2008. Cartografia e caracterização das biocenoses
marinhas da Reserva Ecológica Nacional Submarina entre a Galé e
a foz do rio Arade. Relatório Final CCDR Algarve. Universidade
do Algarve, CCMAR, Faro, 144 pp. + Anexos.
Cartografia e
caracterização das biocenoses marinhas da Reserva Ecológica
Nacional Submarina entre a Galé e a foz do rio Arade -
2008-2009. CCMAR-CCDRALG-DRAOTA (RENSUB III)
Resumo
A cartografia dos habitats e comunidades
marinhas subtidais da costa do Algarve, insere-se no âmbito das
estratégias nacionais para o mar e para a Conservação da
Natureza e Biodiversidade. Esta linha de investigação
possibilitará a definição de critérios para o estabelecimento de
áreas especiais de protecção marinha, sendo de grande utilidade
para o estabelecimento de uma Rede Nacional de Áreas Marinhas
Protegidas e a implementação da Rede Natura 2000 no meio marinho.
A sua utilidade geral, mais prática e imediata será facilitar e
sustentar os processos de gestão, de licenciamento, de
fiscalização e de acompanhamento das actividades relacionadas
com o meio marinho (e.g. dragagens) promovendo uma tomada de
decisão sobre a utilização destes espaços marítimos e costeiros
com base em critérios de rigor e exactidão.
Os objectivos principais deste estudo foram
inventariar e cartografar as principais biocenoses costeiras
(habitats e espécies) da costa central algarvia, troço da orla
costeira subaquática dos 0 aos 30 metros de profundidade e entre
Galé e a foz do rio Arade, nomeadamente as comunidades de
macroalgas e plantas marinhas, macroinvertebrados bentónicos e
peixes. Pretendeu-se assim obter uma cartografia da
biodiversidade marinha costeira que facilitasse uma gestão
sustentável do dominio maritimo.
Para alcançar estes objectivos procedeu-se a
uma avaliação exaustiva dos fundos marinhos de Junho de 2006 até
Setembro de 2008, tendo por base a cartografia de fundos
geológica (granulometria, tipos de fundo) resultante dos estudos
efectuados pela CCDR-Algarve. As amostragens tiveram um carácter
sazonal e no total das campanhas foram realizados 102 dias de
mar. Destes, 86 dias corresponderam a 273 mergulhos individuais
(cerca de 12285 minutos de mergulho), tendo os restantes 16 dias
de mar sido utilizados na realização de um total de 98 arrastos
(média de 6 arrastos/dia).
O plano de amostragem foi aleatório
estratificado por profundidade e tipo de fundo e foram
utilizados três métodos principais de amostragem: censos visuais
por transectos subaquáticos para a ictiofauna e
macroinvertebrados bentónicos do substrato rochoso; método dos
quadrados para a percentagem de cobertura vegetal do substrato
rochoso e arrasto de vara para a ictiofauna e macroinvertebrados
bentónicos dos substratos móveis (areias finas/médias e
grosseiras).
Recorreu-se à análise multivariada para o
tratamento de dados básico, à geoestatistica e aos modelos
aditivos generalizados para cartografar várias variáveis
analisadas (diversidade, densidades) e indicadores criados para
o efeito, como o índice de importância ecológica. O estudo e
cartografia dos fundos marinhos dos 0 aos 30 m de profundidade
da Galé à Foz do rio Arade (Algarve Central) permitiram
identificar um total de 814 espécies correspondentes a 116
peixes (14,3%), 649 de macroinvertebrados bentónicos (79,7%) e
49 algas (6,0%), acrescentando 166 espécies novas às fases
anteriores deste estudo (RENSUB I e II), totalizando agora cerca
de 1319 espécies, aumentando aquele que o já constitui o maior
inventário de espécies marinhas da costa algarvia e um dos
maiores a nível nacional.
De realçar que durante esta fase do estudo
foi possível consolidar as análises que conduziram à descoberta
de 2 novas espécies para a ciência (sp. nov), isto é espécies
que antes não se conheciam a nível mundial: um búzio do género
Fusinus e uma alga do género Gelidium (os nomes
completos só serão revelados após publicação em revista
cientifica internacional da especialidade). Se a alga poderá ser
característica da fachada atlântica da Península Ibérica, já o
gastrópode poderá revelar-se como espécie endémica das costa
algarvias e assim poder assumir a designação de “espécie
algarvia”. O esforço de amostragem possibilitou ainda a
descoberta de 8 novos registos de espécies para Portugal, todos
de esponjas: Axinella guiteli, Crella fusifera,
Dictyonella marsillii, Dictyonella plicata,
Dictyonella incisa, Hymeniacidon mammeata, Mycale
língua e Spongionella pulchella (as 2 últimas para o
continente).
O inventário de espécies global tendo em
conta os projectos anteriores (RENSUB I e II), atingiu um total
de 33 espécies com primeiro registo para Portugal e agora também
2 espécies novas para a ciência, confirmando a importância e a
necessidade deste tipo de trabalhos para o conhecimento da
biodiversidade do mundo marinho, visando sua conservação futura.
Neste levantamento faunistico, 131 espécies apresentam valor
comercial (182 no total das fases do RENSUB) das quais 70 em
Portugal e 15 em outros países. Do conjunto de espécies com
interesse comercial 33 apresentam ainda interesse ornamental (aquariofilia
e coleccionismo) e 22 para produção de componentes biomedicinais.
Seguindo a classificação do ICN (1993) foram registadas 24
espécies “comercialmente ameaçadas”, 2 espécies
“insuficientemente conhecidas” e outras 2 com estatuto “indeterminado”.
Por último, 11 espécies constam da Convenção de Berna e 6 na
lista vermelha da União Internacional para a Conservação da
Natureza (IUCN, 2008).
Em geral existiu uma clara separação entre os
dois grandes grupos de substratos: móveis ou “arenosos” e os
substratos duros ou “rochosos”. O substrato rochoso foi
caracterizado por uma biodiversidade e sobretudo densidades de organismos consideravelmente superior ao substarto móvel. As
espécies estruturantes das biocenoses de substrato rochoso
estudado nesta fase foram as algas castanhas Halopteris
filicina, Dictyota dichotoma e Cystoseira
usneoides as algas vermelhas calcárias Lithophylum
incrustans, Mesophyllum expansum e Peyssonnelia
spp., as anémonas Anemonia sulcata e Aiptasia spp.,
o briozoário Myriapora truncata, o ouriço
Paracentrotus lividus, o gastrópode Bolma rugosa, a
esponja Phorbas fictitius, e o pepino do mar
Holothuria cf. forskali.
Este tipo de substrato é considerado um
habitat essencial para muitos peixes marinhos como os juvenis e
adultos de espécies espécies bentónicas e crípticas como os
cabozes Gobius xanthocephalus e Parablennius
pilicornis e demersais com valor comercial como a safia
Diplodus vulgaris.
Os fundos arenosos foram claramente dominados
pelos peixes (e.g. Microchirus boscanion, Arnoglossus
thori, A. lanterna, Serranus hepatus,
Gobius gasteveni e Deltentosteus quadrimaculatus),
nomeadamente pelas famílias soleidae e bothidae, isto é, peixes
planos perfeitamente adaptados aos fundos móveis onde vivem, se
alimentam e reproduzem. As fortes aglomerações de uma só espécie,
M. boscanion, que podem estar associadas com a sua presença
maciça no estuário do Arade, poderão estruturar as comunidades
bentónicas de substrato arenoso.
Para os dois tipos de substrato, a
sazonalidade condiciona a definição das densidades e
biodiversidade, pondo em evidência sobretudo as diferenças entre
estações extremas (e.g. Inverno-Verão). Estas diferenças derivam
das relações que se estabelecem entre a temperatura e
hidrodinamismo com os diversos ciclos de vida anuais de muitas
espécies bentónicas.As diferenças existentes entre os diversos
afloramentos rochosos analisados tiveram origem na profundidade
e na natureza, topografia e hidrodinamismo prevalecente em cada
área, enquanto no substrato móvel existiram diferenças
significativas sobretudo entre as comunidades dos 2 estratos de
profundidade extremos (0-10 vs. 20-30), com um aumento da
diversidade e abundância com a profundidade. A maior
complexidade do habitat e uma maior estabilidade hidrodinâmica e
consequentemente de parâmetros ambientais (e.g. temperatura,
salinidade, turbidez e oxigénio dissolvido) poderão determinar a
maior riqueza biológica a maiores profundidades. A atribuição de
uma classificação aos diversos biótopos seguiu em termos gerais
as regras estipuladas pela EEA-European Nature Information
System (EUNIS) e pela Britânica Joint Nature Conservation
Committee (JNCC), que evidenciam as espécies dominantes e um
conjunto de espécies conspícuas e características de
determinadas condições ambientais e/ou bióticas de determinado
habitat. Em geral, e para um primeiro nível de habitats marinhos
existem 2 paisagens marinhas, substrato rochoso e móvel, que se
subdivide em litoral, infralitoral e circalitoral (nível 2),
separando-se cada um em função da energia associada e a natureza
no caso das rochas e tipo de granulometria nos sedimentos (nível
3), destacando-se na zona estudada os biótopos de substrato
rochoso do infralitoral, circalitoral costeiro, circalitoral
profundo e bíotopo de substrato móvel litoral.
A modelação para averiguar quais as zonas
mais ricas e mais sensíveis do ponto de vista ecológico,
denominado Índice de Importância Ecológica (IIE), integrou
componentes de viabilidade e ameaça (utilizando a variável
densidade), de vulnerabilidade e raridade (espécies com estatuto
de conservação) e de representatividade, tendo a ponderação
iterativa utilizada valorizado áreas de presença de juvenis. À
luz deste modelo, as zonas prioritárias em termos de conservação
da biodiversidade estão centradas na Baia de Armação de Pêra,
biotopo rochoso circalitoral costeiro.
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