[an error occurred while processing this directive]

 

Gonçalves, J.M.S., Monteiro, P., Afonso, C., Oliveira, F., Rangel, M., Machado, M., Veiga, P., Leite, L., Sousa, I., Bentes, L., Fonseca, L. & Erzini, K. 2010. Cartografia e caracterização das biocenoses marinhas da Reserva Ecológica Nacional Submarina entre a foz do Rio Arade e a Ponta da Piedade. Relatório Final. ARH Algarve. Universidade do Algarve, CCMAR, Faro, 122 pp. + Anexos.

Cartografia e caracterização das biocenoses marinhas da Reserva Ecológica Nacional Submarina entre a foz do Rio Arade e a Ponta da Piedade - 2009-2010. CCMAR-ARH (RENSUB IV)

Resumo

A A costa algarvia apresenta uma porção de território significativa que está integrada na designada Reserva Ecológica Nacional, na sua vertente submarina (0 aos 30 metros de profundidade - RENSUB), especialmente quando comparada com a equivalente no meio terrestre. A cartografia digital de todos os habitats e comunidades marinhas subtidais da costa do Algarve, irão contribuir para a definição de critérios para o estabelecimento de áreas especiais de protecção marinha, contribuindo potencialmente para estabelecimento de uma Rede Nacional de Áreas Marinhas Protegidas e a implementação da Rede Natura 2000 no meio marinho. Contribuirá igualmente para facilitar e sustentar os processos de gestão, de licenciamento, de fiscalização e de acompanhamento das actividades relacionadas com o meio marinho (e.g. dragagens, aquaculturas e parques eólicos “offshore”) promovendo tomadas de decisão sobre a utilização destes espaços marítimos e costeiros com base em critérios de rigor e exactidão.

Este projecto de cartografia da biodiversidade marinha no Algarve está enquadrado nas principais directivas da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade e com a Estratégia Nacional para o Mar, nomeadamente na promoção da investigação científica e o conhecimento sobre o património natural, monitorização de espécies, habitats e ecossistemas; a constituição da Rede Fundamental de Conservação da Natureza e do Sistema Nacional de Áreas Classificadas e na ordenação e planeamento, em termos espaciais, do espaço oceânico e das zonas costeiras, protegendo devidamente o valioso património natural marinho que Portugal possui. Está igualmente em linha com as principais directivas europeias e de outros organismos internacionais, com as quais o estado português está comprometido: UE Directiva Habitats, Extensão da Rede Natura 2000 ao meio marinho, UE Directiva Quadro da Água, UE Directiva Quadro “Estratégia Marinha”, Política Marítima Europeia, Politica Comum de Pescas, Convenção para a Conservação da Biodiversidade (CBD), Agenda 21, ICES e Convenção OSPAR.

O presente estudo é uma continuação e aprofundamento dos projectos Rensub I, II e III (Gonçalves et al., 2004b; 2007b, 2008b), pelo qual se pretendeu prosseguir a inventariação e cartografia dos principais biótopos costeiros (habitats e espécies) do Algarve Central. Mais concretamente, pretendeu-se cartografar as comunidades de macroalgas e plantas marinhas, macroinvertebrados bentónicos e peixes no troço da orla costeira subaquática dos 0 aos 30 metros de profundidade, entre a foz do rio Arade (Portimão) e a Ponta da Piedade (Lagos).

Para alcançar estes objectivos procedeu-se a um estudo aprofundado dos fundos marinhos de Maio de 2009 até Junho de 2010, tendo por base a cartografia de fundos geológica (granulometria, tipos de fundo) resultante dos estudos efectuados pela ARH/CCDRAlgarve. As amostragens tiveram um carácter sazonal e no total das campanhas foram realizados 62 dias de mar. Destes, 45 dias corresponderam a 190 mergulhos individuais (cerca de 9500 minutos de mergulho; 22 pontos de amostragem), tendo os restantes 17 dias de mar sido utilizados na realização de um total de 152 arrastos (100700 m2; 38 pontos de amostragem).

O plano de amostragem foi aleatório estratificado por profundidade e tipo de fundo e foram utilizados três métodos principais de amostragem: censos visuais por transectos subaquáticos para a ictiofauna e macroinvertebrados bentónicos do substrato rochoso; método dos quadrados para a percentagem de cobertura vegetal do substrato rochoso e arrasto de vara para a ictiofauna e macroinvertebrados bentónicos dos substratos móveis (areias finas/médias e grosseiras). Recorreu-se à análise multivariada para o tratamento de dados básico, à geoestatistica e aos modelos lineares e aditivos generalizados (GLM e GAM) para cartografar várias variáveis analisadas (diversidade, densidades) e indicadores criados para o efeito, como o índice de importância ecológica.

O estudo e cartografia dos fundos marinhos dos 0 aos 30 m de profundidade da Foz do rio Arade (Portimão) até à Ponta da Piedade (Lagos) permitiu identificar um total de 567 espécies correspondentes a: 116 peixes (17,5%), 461 macroinvertebrados bentónicos (76,1%) e 39 algas (6,4%), acrescentando 48 espécies novas às fases anteriores deste estudo (RENSUB I, II e III). No total e para o conjunto destes estudos, foram registadas aproximadamente 1495 espécies (1349 animais + 146 algas/plantas), aumentando aquele que já constitui o maior inventário de espécies marinhas da costa algarvia e um dos maiores a nível nacional.

Nesta fase, o esforço de amostragem permitiu a descoberta de 3 novos registos de espécies para Portugal: uma anémona branca Parazoanthus anguicomus (Norman, 1868), cuja presença no Algarve será actualmente o limite sul da sua distribuição; um hidrozoário colonial Sertularella crassicaulis (Heller, 1868), registado pela primeira vez para a costa Atlântica da Europa continental e um caranguejo de pinças robustas Calappa cf. tuerkayana Pastore, 1995, que será o primeiro registo para a costa Atlântica da Europa continental.

Tomando em conta os projectos anteriores (Gonçalves et al., 2004a, b, 2007b, 2008), o inventário de espécies global atingiu um total de 36 espécies com primeiro registo para Portugal e uma espécie nova para a ciência (outras 3 em estudo), demonstrando a importância e a necessidade deste tipo de trabalhos para o conhecimento da biodiversidade do mundo marinho, com vista à sua conservação futura.

No inventário de biodiversidade marinha realizado, 227 espécies apresentam valor comercial (447 se considerarmos todas as fases do RENSUB). Do conjunto de espécies com interesse comercial, 161 apresentam ainda interesse ornamental (aquariofilia, coleccionismo, decoração) e 46 para produção de componentes biomedicinais e experimentação laboratorial.

Neste contexto, o presente projecto serviu de base para o lançamento do projecto “Exploração da diversidade bacteriana contida nos metagenomas de esponja marinhas”, que decorre actualmente e que pretende determinar a importância dos microorganismos que vivem associados a esponjas dos géneros Spongia, Sarcotragus e Ircinia, nomeadamente na produção de metabolitos potencialmente utilizáveis pela indústria farmacêutica.

Seguindo a classificação do ICN (1993) foram registadas 20 espécies “comercialmente ameaçadas”, 6 espécies “insuficientemente conhecidas” e outras 2 com estatuto “indeterminado”. Por último, 16 espécies constam da Convenção de Berna e 6 na lista vermelha da International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2010).

De um modo geral, houve uma distinção nítida entre substratos móveis ou “arenosos” e os substratos duros ou “rochosos”. O substrato rochoso caracterizou-se por uma biodiversidade e sobretudo densidades de organismos consideravelmente superior ao substrato móvel. As espécies estruturantes destas biocenoses são as algas castanhas como Dictyota dichotoma, Halopteris filicina, as algas vermelhas Asparagopsis armata, Gelidium latifolium, Peyssonnelia rubra e calcárias Lithophylum incrustans, L. expansum e Mesophyllum lichenoides, as anémonas Anemonia sulcata, Aiptasia diaphana e Parazoanthus axinellae, o briozoário Myriapora truncata, o ouriço Paracentrotus lividus, os gastrópodes Bolma rugosa e Gibbula cineraria, as esponjas Phorbas fictitius e Axinella polypoides, e o pepino do mar Holothuria mammata e as gorgónias Eunicella labiata e Leptogorgia sarmentosa.

Os fundos rochosos foram considerados um habitat essencial para muitos peixes marinhos, como os juvenis e adultos de espécies bentónicas e crípticas como os cabozes Gobius xanthocephalus e Parablennius pilicornis e demersais como o bodião Ctenolabrus rupestris e judia Coris julis e para peixes com valor comercial como a safia Diplodus vulgaris. Nos fundos arenosos o domínio pertenceu aos peixes planos (e.g., Buglossidium luteum, Arnoglossus thori e Microchirus boscanion), nomeadamente pelas famílias soleidae e bothidae, isto é, espécies muito bem adaptadas aos fundos móveis onde vivem, se alimentam e reproduzem. As grandes aglomerações monoespecificas, e.g. Buglossidium luteum, que podem estar associadas com a sua presença maciça no estuário do Arade, poderão estruturar as comunidades bentónicas de substrato arenoso. Apesar de neste caso o pepino do mar, Holoturia cf. tubulosa, e o ofiuro Ophiura texturata terem uma representação importante em peso e em número, respectivamente, os peixes achatados realizarão de algum modo o papel que os equinodermes desempenham nos fundos adjacentes a Albufeira-Faro.

Em termos de espécies chave e para efeitos de monitorização, as mais relevantes seriam Anemonia sulcata e Diplodus vulgaris no rochoso e Buglossidium luteum, Arnoglossus thori e Ophiura texturata no arenoso. Esta monitorização poderá ser feita por transectos de vídeo e/ou arrasto de vara no substrato móvel e por censos visuais nos afloramentos rochosos. Quer para o substrato móvel, quer para o rochoso, a sazonalidade condiciona de forma clara a definição das densidades e biodiversidade, tornando-se particularmente evidentes as diferenças entre estações extremas, Inverno-Primavera nas areias e Inverno-Verão nas rochas. Esta sazonalidade reflectirá as relações que se estabelecem entre a temperatura e hidrodinamismo e os vários ciclos de vida anuais de muitas espécies bentónicas.

À semelhança de estudos anteriores, as diferenças existentes entre os vários afloramentos rochosos estudados foram determinadas pela profundidade e pela natureza, topografia e hidrodinamismo prevalecente em cada área, enquanto no substrato móvel existiram diferenças significativas sobretudo entre as comunidades dos 2 estratos de profundidade extremos (0-10 vs. 20-30), com um aumento da diversidade e abundância com a profundidade. A ausência de artes de pesca arrastantes (e.g. ganchorra), a maior complexidade do habitat e uma maior estabilidade hidrodinâmica e consequentemente de parâmetros ambientais (e.g. temperatura, salinidade, turbidez, composição orgânica e oxigénio dissolvido) poderão constituir a causa para uma maior riqueza biológica a maiores profundidades.

As comunidades típicas encontradas em ambos os substratos (arenoso e rochoso) não diferiram em muito das comunidades de fauna descritas para as áreas adjacentes anteriormente cartografadas (RENSUB III), embora no caso do substrato móvel seja algo diferente das comunidades de areia grosseiras existentes entre Albufeira a Faro (RENSUB I e II), ao que não será alheia a granulometria distinta, mais fina a Oeste, muito por influência dos aportes de diversos cursos de água doce, com destaque para o Arade.

A continuidade das comunidades era esperada devido à curta extensão em termos biogeográficos e ao facto de grande parte das espécies identificadas ter uma ampla distribuição geográfica, sendo comuns tanto no Mediterrâneo próximo como no Oceano Atlântico. O presente estudo permitiu assim, fortalecer as conclusões fundamentais obtidas nos estudos anteriores da reserva ecológica Nacional submarina do Algarve Central – RENSUB (Gonçalves et al., 2004b; 2007b; 2008b).

A classificação dos diversos biótopos seguiu, uma vez mais e em traços gerais, as regras determinadas pela European Nature Information System (EUNIS, Davies et al., 2001) e pela Britânica Joint Nature Conservation Committee (JNCC, Connor et al., 2004), que evidenciam as espécies dominantes e um conjunto de espécies conspícuas e características de determinadas condições ambientais e/ou bióticas de determinado habitat. O método de discriminação de biótopos foi, contudo, original, seguindo o estudo anterior (RENSUB III) foi constituído por quatro componentes que passam pela valorização da composição específica, frequência de ocorrência, abundâncias e raridade. Porém, foi introduzido no presente estudo um método inovador de zonação ecológica do meio marinho, em que o infralitoral é separado do circalitoral em termos quantitativos com base na cobertura algal.

Em termos gerais, e de acordo com a nova metodologia, destacaram-se na zona estudada os biótopos de substrato rochoso do infralitoral costeiro (Eunis A3.24A), infralitoral profundo (Eunis A3.24B), circalitoral costeiro (Eunis A4.28) e dois biótopos de substrato de móvel Sublitoral (Eunis A5.23) e Circalitoral (Eunis A3.25). De salientar que o biótopo associado ao circalitoral rochoso não existia na classificação EUNIS, pelo que será uma proposta original deste estudo.

Para determinar quais as zonas mais ricas em termos de biodiversidade marinha conservaram-se os padrões usados nas anteriores fases do projecto RENSUB (Gonçalves et al., 2004b, 2007b, 2008b), integrando no espaço elementos de densidade e diversidade biológica (índices de Margalef e Shannon) e a abundância e distribuição relativas de espécies com valor conservacionista. A ponderação iterativa das variáveis referidas, seguiu novamente a aproximação de Delphi, com consulta a especialistas em ecologia costeira e continuou a valorizar, ainda que indirectamente, as áreas consideradas como viveiros de juvenis de espécies comerciais e as áreas particulares de reprodução de espécies.

A base de sustentação teórica em que assenta o modelo Índice de Importância Ecológica (IIE) reside nas componentes de viabilidade e ameaça, vulnerabilidade e raridade e representatividade. As suas vantagens continuam centradas na flexibilidade e na potencialidade para ser ajustado e actualizado numa plataforma de Sistema de Informação Geográfica, constituindo uma ferramenta apropriada para uma gestão espacial do meio ambiente marinho. À luz deste modelo, as zonas prioritárias em termos de conservação da biodiversidade estão cingidas ao maciço rochoso subtidal da Baia de Lagos (10-20m), biótopo de substrato rochoso do infralitoral profundo.

[an error occurred while processing this directive]